Publicado por: urucumdesign | 26 de Janeiro de 2010

É preciso desenhar.

O que faz um Designer? Porque o Design está hoje no foco de atenção dos grandes centros de estudos sobre estratégias comerciais? Porque a Estética é o fator estratégico que vem substituindo conceitos como reengenharia ou downsizing no vocabulário dos “homens de negócios”?

Para responder a estas questões é importante colocarmos em perspectiva histórica o que nós, homens urbanos, viemos produzindo durante o século passado, e que nos ajudarão a vislumbrar os desafios para este novo século.

Duas revoluções industriais nos permitiram solucionar dois grandes desafios do século XX: precisávamos produzir bens em escala industrial, para atender a uma população urbana crescente e sedenta, e precisávamos produzi-los com competência tecnológica, eles precisavam ”funcionar”.

Paralelamente a estes dois desafios, e intimamente relacionado a eles, vivíamos um encantamento iluminista, fruto da crescente competência científica que desenvolvemos e que nos conduziu a tempos de “elogios da razão”. Nos encantamos com nossa capacidade de explicar cientificamente o mundo e, com isso, dominá-lo.

Mas, ao focarmos no domínio do mundo exterior, nos esquecemos de prestar atenção ao que vinha acontecendo com o mundo interior, com nosso espírito, com nossa dimensão psíquica, com nossas emoções.

O resultado desses movimentos pode ser percebido no “mercado”.

Vivemos tempos de prosperidade tecnológica, conquistada pelo exercício competente de nossas habilidades racionais, nosso lado esquerdo do cérebro. Ao mesmo tempo, produzimos uma quantidade enorme de bens “similares”, na dimensão tecnológica, com pouca relevância simbólica e com carência de significado expressivo.

Como animais sociais, deveríamos lembrar que todo gesto ou produto nosso visa o diálogo, a troca de visões de mundo e a construção do eu, da subjetividade. Buscamos, sempre, encontrar nossos semelhantes, ao mesmo tempo em que queremos ser diferentes, em que queremos ser reconhecidos como únicos e especiais por nossos semelhantes.

Este impulso básico de busca de afeto e atenção, uma motivação psicológica, pode ser interpretado como uma fome do espírito, tão vital para nós humanos como a fome do corpo, o impulso primitivo de todo ser vivo. É a satisfação de ambas que nos leva à felicidade subjetiva.

Apreciar um espetáculo de dança, contemplar um por do sol ou saborear Shakespeare são prazeres que alimentam nossa alma, porque nos conectam com nossos semelhantes e nos permitem crescer como cultura. São “musculações” do lado direito do cérebro, que precisamos voltar a exercitar, ou correremos o risco de nos transformarmos nas máquinas que construímos para nos ajudar.

Adauto Novaes nos alerta, no seu livro “O Homem-máquina”: “a ação que o mundo moderno celebra é mais que tudo a fabricação de coisas ou objetos, não a relação entre seres humanos.” E ainda: “O termo praxis (prática), para os gregos, tinha o sentido de ação recíproca entre os humanos”.

Onde entra o design neste cenário? Se sabemos que toda produção ou consumo do homem visa saciar duas fomes, a do corpo e a do espírito, da psiquê, perceberemos que resolvemos muito bem a primeira, através de nossa competência tecnológica, e que nos vemos agora diante do desafio de reincorporar a nossos bens, que já funcionam bem, a dimensão expressiva e simbólica que irá alimentar nossa alma.

Expressar implica em ter o que expressar, em comunicar valores relacionais, éticos, sociais, psicológicos, comportamentais, humanos que sejam relevantes para um determinado público, para uma determinada ”tribo”.

Usando o exemplo da Nike, uma das grandes marcas de nossos tempos, que não possui nenhuma fábrica de tênis no mundo. Qual o verdadeiro produto da Nike? O que a Nike “vende”? Ela vende competitividade, ousadia, jovialidade e modernidade, ou seja, um conjunto de valores humanos que, para serem expressos e tangibilizados, se apresentam, desenhados, na forma de calçados esportivos. Um conjunto de qualidades humanas que, incorporadas à dimensão funcional do objeto, calçado esportivo, transformam um produto na marca de uma tribo e de uma geração.

Daí vê-se hoje uma crescente busca da compreensão da dimensão subjetiva do bem estar, de entender a dimensão sociológica e expressiva de nossa condição humana e incorporar esta dimensão, a da cultura, ao que produzimos para nossa felicidade.

Em um cenário globalizado, acentua-se a importância da busca da identidade cultural, expressa através da capacidade de transferir para nossos produtos os valores locais e a nossa maneira de ver o mundo.

É isso que o mundo, hoje, troca em um contexto de comércio internacional. Caberia, assim, ao território da cultura, um papel estratégico e vital como fonte de reflexão nacional sobre valores, sua produção e sua contribuição para a construção de uma identidade nacional forte, relevante, única e brasileira.

O que vejo e o que nos anima muito é o renascimento de um neo-humanismo, muito bem vindo. Desenhar é dar forma a nosso espírito, para que possamos expressar nossa visão de mundo e compartilhá-la. A estética é a face visível do espírito.

Assim o desenhar, o design, caminha hoje para sua real condição de agente cultural e estratégico, deixando de ser um mero exercício da forma para se tornar um importante instrumento de expressão e tradução de conceitos e valores relevantes que permitam a “troca entre humanos”.

Talvez precisemos repensar a máxima “time is money”, fruto de uma visão protestante e materialista do mundo, para resgatarmos a sutileza e delicadeza e lembrar que, como bem observou Mies van der Rohe, “God lives in the detail”.


Responses

  1. Entrei com urucum design de joias.
    Havia uma loja de design na Galeria de Ipanema onde está o Cinema 1.
    Especialmente os brincos eram lindos. Até hoje tenho uns é sempre lembro da loja.
    Li o texto sobre design. É muito bom.
    Vc fez parte da loja Urucum? O texto combina com tudo o que era exposto .
    Onde posso ver os seus produtos atuais?


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: