Publicado por: urucumdesign | 26 de Janeiro de 2010

O que faz um designer?

Nós não vemos as coisas como elas são. Nós vemos as coisas como nós somos.

Durante toda minha vida profissional, essa pergunta sempre se recoloca como uma forma de dúvida primordial, movida pela busca de sentido que norteia minha formação e aperfeiçoamento, e interrompe algumas noites de sono com novas descobertas.

O que desenha um designer? Em que momento começa um desenho? Por que toda obra do homem tem um determinado desenho, escolhido por ele? Temos fome de desenho? Onde fica este estômago que se alimenta do belo?

Algumas das respostas, curiosamente, também vão se desenhando e redesenhando ao longo dos anos, na medida dos encontros com o mundo, como uma forma de modelar, que acontece no tempo e na observação curiosa. E o que tenho visto durante estes anos de trabalho?

Cada vez que um cliente procura um designer parece ter em mente uma idéia de design específica, relacionada à qualificação estética da forma. Muitos de nós somos procurados por quem busca uma bela marca, um folder bonito, uma embalagem atraente, um website impactante. A imagem que se tem do fazer do designer está, parece relacionada num primeiro momento à competência para produzir o belo.

Olhando mais atentamente para essa dinâmica, percebo que a estética é uma espécie de sintoma, provocado por um desequilíbrio, que não é racional, mas sim sensorial, e que acontece no território da identidade. Poderíamos dizer que uma disfunção de identidade provoca uma dor estética. A estética é a face visível do espírito.

Quando uma empresa decide, por exemplo, mudar sua marca, algo já mudou antes, algo que provocou uma defasagem de identidade entre como a empresa se vê e como ela se expressa, através de sua marca. Lembro aqui de uma passagem curiosa, quando me foi perguntado, o que era uma marca perfeita. Pensei, e percebi que toda marca é perfeita enquanto estiver sendo usada como a expressão de um sujeito, pois é esta sua razão de ser. Percebi também que sempre tendemos a adjetivar os objetos, chamando uma marca ou um vaso de belo, e nos esquecendo de que, já sabiam os gregos, um objeto belo é a expressão de um sujeito belo, flagrado como tal através de sua obra, de sua expressão através do objeto, este porta-voz da alma. Assim sendo, a marca perfeita é a que está em uso, e ela passará a ser questionada como “antiga, feia, envelhecida, etc” quando o sujeito – cliente, empresa, serviço ou produto – tiver mudado. E se você a acha “feia”, tente olhar para o contexto…

E então, onde começa um desenho? Me parece, hoje, que o desenho começa no sujeito. Um sujeito em permanente mutação que busca, ao longo de sua trajetória de encontros, uma forma de falar de si, de compartilhar sua visão de mundo com seu semelhante, para que assim ele próprio, no encontro com o outro, com o diferente, possa aperfeiçoar o desenho de seu eu.

Trazendo essa reflexão para a prática profissional, percebo que um bom designer, hoje, deve aprender a integrar a estética – seu instrumento – com a ética, o conjunto de valores que dá sentido e identidade a toda obra do homem – sua música. Antes de desenhar a forma, através do design-resposta, me parece cada vez mais relevante podermos ajudar a redesenhar o conteúdo, interagindo na reconstrução da pergunta. Começar, portanto, desenhando o que dizer, para só então e de forma mais precisa, buscar a forma bela, o como dizer, que integre razão e emoção, eficiência e sensibilidade, engenho e poesia, identidade e verdade, ética e estética.

Numa sociedade orientada para o mercado e o consumo, e regida pela lógica utilitarista, onde o valor está associado ao “para que serve”, um valor limitador de todo o universo sensível e sutil, entender a responsabilidade de quem desenha, em profundidade, me parece ser entender o papel que a visão crítica desta dinâmica tem como geradora de um novo desenho de homem. Um homem que hoje se vê em crise de identidade, conectado on-line com seu semelhante ao mesmo tempo em que se afasta dele e dos valores humanos, encantado com sua competência para produzir máquinas, onde não sabe muito bem o que escrever.

Que o novo, que hoje se busca de forma frenética e muitas vezes cega, possa vir, depois da era moderna e da era pós-moderna, na forma de uma desaceleração reflexiva, na direção de uma era neo-humanista. Temos que redesenhar o homem, mais uma vez e sempre, olhando para ele e para seus sonhos, seus medos e seus desejos, com atenção, com carinho, com cuidado. Que venha a era da delicadeza!


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